Herança das cooperativas, verticalização predomina.

“Nosso carro-chefe é a soja e o milho e só quando há uma necessidade muito específica é que re­­corremos a outros agricultores”, ressalta o diretor. Isso ocorre, acrescenta Otaguiri, quando um determinado cliente exige produto in­­dustrializado com grão convencional. Nesses casos, como a maior par­­te dos agricultores ligados à cooperativa lida com transgênicos, é preciso comprar soja de terceiros. Na Coamo, a maior cooperativa da América Latina, com sede em Campo Mourão, apenas 6% do que abastece as unidades industriais vêm de “terceiros”, destaca o presidente da cooperativa, Aroldo Gal­­las­­sini. “A Coamo sempre trabalha com seu quadro social. Hoje, 94% do fornecimento vêm dos nossos cooperados.” A cooperativa tem 23 mil associados, emprega 5.400 trabalhadores e atua além das divisas paranaenses: está em Santa Cata­rina e no Mato Grosso do Sul. Uma das cooperativas com produção mais diversificada, a Coca­mar (Maringá) também é caracterizada pela verticalização do processo produtivo. Ou seja, fomenta-se entre os agricultores a produção de matéria-prima que atenda aos obje­­tivos da atividade industrial da cooperativa. “A quase totalidade dos nossos produtos, cerca de 85%, é de cooperados da Cocamar – caso da soja, do milho, do trigo, da laranja e do café”, informa o superintendente de Operações, Arquimedes Ale­­xandrino.  “A cooperativa está presente em todas as etapas da cadeia produtiva e controla a qualidade da matéria-prima que vai gerar o produto final.” Na avaliação do doutor em Geogra­­fia Sérgio Fajardo, professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), a verticalização foi a base do processo de agroindustrialização do Paraná. No estudo “O novo padrão de desenvolvimento agroindustrial e a atuação das cooperativas agropecuárias no Paraná”, Fajardo analisa os 20 primeiros anos – da década de 70 à de 90 – da agroindustrialização do estado.  “A verticalização representou um salto no crescimento das cooperativas que atuam no meio rural.” Para o professor, graças a esse “salto”, no Paraná não se repetiu o domínio absoluto das “traders” do agronegócio (ADM, Bunge e Cargill, o chamado “ABC”) verificado no restante do país. “Aqui, a liderança é de cooperativas como a Coamo, Cocamar”, observa Fajardo. Indústria de tofu fideliza produtores de soja Campo Largo Apesar de estar situada em Cam­­po Largo, a 30 quilômetros de Curi­­tiba, a indústria de patê, hambúrger e tofu orgânicos Samurai Foods mantém ligação direta com o setor produtivo. Para garantir matéria-prima livre de agrotóxicos e sem a presenção de grãos geneticamente modificados, depende da fidelidade dos fornecedores. A soja é adquirida de uma em­­presa de distribuição do Su­­doeste do Paraná, que por sua vez recebe o grão dos agricultores orgânicos da região. O produto chega a valer 50% mais do que o transgênico. A seleção dos fornecedores precisa ser criteriosa. Afinal, ressaltam os administradores, uma série de procedimentos devem ser observados para que a soja – e, consequentemente, a produção da fábrica – seja certificada como orgânica. Os fornecedores não são associados da empresa, mas precisam seguir à risca o uso de sementes convencionais e o controle de pragas no manejo (sem veneno). A produção da indústria, que tem 19 funcionários, chega a 65 toneladas por ano e tende a ser ampliada para 80 toneladas em 2012, segundo os sócios-administradores, Frantiesco Pessoa e Marcos Vellozo. Os dois não revelam valores, mas asseguram que o faturamento tem crescido de 13% a 15% cada ano. Apesar de alguns entraves – preço elevado nas gôndolas dos supermercados, desconhecimento de boa parte dos consumidores sobre produtos orgânicos e dificuldades de transporte para levar os produtos às regiões Norte e Nordeste do país –, o mercado está em expansão. “Para o ano que vem, esperamos um incremento nas vendas de 12% em relação a este ano, que está sendo 13% maior que em 2010.”